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O brasileiro que tentou deter o Holocausto
Sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 - 14:11hs
Rio de Janeiro - No dia 8 de junho de 1942, a parisiense Hélène Berr escreve em seu diário: "É o primeiro dia em que me sinto realmente de férias. Faz um tempo radiante, bastante fresco depois do temporal de ontem. Os pássaros piam, uma manhã como aquela de Paul Valéry. Primeiro dia em que vou também usar a estrela amarela. São os dois lados da vida neste momento: o frescor, a beleza, a juventude da vida, encarnada nessa manhã tão límpida; a barbárie e o mal, representados por esta estrela amarela". O distintivo que a jovem Hélène está prestes a ostentar é uma estrela de seis pontas, "do tamanho da palma da mão", trazendo em letras pretas a palavra "JUDEU", costurada na roupa do lado esquerdo do peito.
A estrela de uso obrigatório para todos os judeus acima de seis anos de idade na França ocupada pelos nazistas simbolizava a Nova Ordem de Adolf Hitler na Europa. Esse regime, em vigor na Alemanha desde 1933, se propunha a subjugar, explorar ou eliminar populações de origem não-ariana, sobretudo judaica. Antes de entrar em colapso, o III Reich estava perto de atingir esse objetivo. Cerca de 6 milhões de judeus foram exterminados dentro e fora da Alemanha durante a II Guerra Mundial. Na França, restaram menos de 3% dos 76 mil (a maioria estrangeiros) deportados entre 1940 e 1944. Alcançada pela Gestapo em 1944, Hélène Berr (cujo Diário foi publicado recentemente no Brasil pela Objetiva) sobreviveria a Auschwitz, mas morreria em Bergen-Belsen depois de participar da infame Marcha da Morte. Meses antes da deportação, angustiada com sua condição de semiclandestina em Paris, cogitou em seu diário dividir o mundo em duas partes: "uma das pessoas que não conseguem compreender (...) e outra com as que conseguem". E observou: "E nessa categoria preferencial, haveria uma grande quantidade de gente simples, gente do povo, e muito poucos daqueles que chamamos de 'amigos'".
Nos próximos meses deve chegar às salas de exibição um documentário dedicado à trajetória de um integrante da "categoria preferencial" dos que compreenderam e tentaram deter a engrenagem do extermínio. Está em fase de produção Bom para o Brasil, do realizador Luiz Fernando Goulart, dedicado à vida de Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador brasileiro na França durante 24 anos. O título reproduz a expressão diplomática usada em passaportes visados pelo embaixador que permitia a seus portadores – judeus, em sua maioria – fugir da indústria da escravização e da morte. Entre 1940, quando os alemães entraram em Paris, e 1944, pelo menos 473 perseguidos, segundo a contagem do historiador Fábio Koifman, puderam escapar em segurança da Europa graças à bravura de Souza Dantas. O nome do embaixador está inscrito no Jardim dos Justos entre as Nações, em Israel, como um dos que ajudaram a salvar judeus do Holocausto. É o segundo brasileiro a receber essa homenagem – a outra é Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, ex-funcionária de consulado em Hamburgo. Em Paris, uma placa na casa em que morou indica que ali viveu "um amigo da França".
– Quero lançar Bom para o Brasil em 2010. Para que não haja apenas um herói brasileiro nas telas este ano – diz Goulart, 68 anos, carioca de Vila Isabel, numa ironia com o longa Lula, O Filho do Brasil, de Fábio Barreto.
A atitude do embaixador era uma desobediência frontal à política de imigração do governo brasileiro, que, na época, proibia a concessão de vistos a "semitas e outros indesejáveis". Antes mesmo da instauração da ditadura do Estado Novo, em novembro de 1937, o governo Getúlio Vargas tentara impedir o ingresso de judeus no país por meio das chamadas "circulares secretas" do Itamaraty – a primeira delas, sob o nº 1.127, foi editada em junho daquele ano. A maioria dos chefes de missões brasileiras no Exterior cumpria à risca a determinação. Em abril de 1938, menos de um ano depois da emissão da primeira circular, o cônsul-geral em Budapeste, Mário Moreira da Silva, comunicou ao ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, a recusa de visto de entrada no Brasil a 55 indivíduos, "todos declaradamente de origem semita". Até mesmo nomes ilustres esbarravam nas restrições brasileiras. Em fevereiro de 1941, o físico Albert Einstein, judeu alemão então refugiado nos Estados Unidos, apelou em carta a Aranha para que intercedesse em favor da mãe idosa de um parente dele, morador na "Rua Cardeal Arcoverde, 1.992, São Paulo". "A pobre mulher, de 64 anos, está num campo de concentração no sul da França onde tem de viver sob as mais horríveis condições", escreveu o pai da Teoria da Relatividade. Não houve resposta.
Com Souza Dantas a história foi diferente. Ao deixar a Paris assediada pelos nazistas em meados de junho de 1941 e seguir as autoridades francesas em retirada para Bordeaux e depois Vichy, o embaixador passou a expedir vistos diplomáticos para quem os pedisse sem exigir nada em troca. A legislação brasileira estabelecia que vistos só poderiam ser concedidos mediante apresentação de documentos como certidões negativas de antecedentes policiais e atestados de saúde, de profissão e de "origem étnica", inacessíveis para refugiados naquelas condições. A maioria dos que procuravam Souza Dantas era portadora dos chamados passaportes Nansen, fornecidos pela defunta Liga das Nações para apátridas.
– Ele assinava vistos até em cardápios de restaurante – revela Goulart.
Em 12 de dezembro de 1940, Aranha expediu a circular 1.498, pela qual era reiterada a proibição de concessão de vistos a judeus. Souza Dantas passou então a assinar os documentos com datas anteriores à da circular. Nem todos os que auxiliou se dirigiram ao Brasil.
O embaixador não deixou uma lista daqueles a quem salvou. Não mantinha um arquivo, e publicou em vida um único artigo, em francês, sobre questões diplomáticas anteriores à guerra. Fábio Koifman, autor de Quixote nas Trevas – O Embaixador Souza Dantas e os Refugiados do Nazismo, estima que, embora apenas 473 vistos tenham sido confirmados, o diplomata ajudou pelo menos o dobro de perseguidos. Até a publicação da biografia de Koifman, nenhuma rua no Brasil homenageava o embaixador.
Vulto esquecido
"Luiz Martins de Souza Dantas é um exemplo, em seu país de nascimento, do esquecimento histórico de que são vítimas tantos brasileiros notáveis. Independentemente de sua atuação específica na questão dos refugiados de guerra, Souza Dantas foi considerado um dos mais importantes e competentes diplomatas brasileiros, se não mundiais, de seu tempo, a primeira metade do século XX. Com efeito, embora o nome do embaixador ainda esteja fortemente registrado na memória das pessoas de cultura do Brasil nascidas antes de 1925, passados quase cinquenta anos de sua morte, sobram dele apenas algumas citações em livros de memorialistas".
Fábio Koifman, em "Quixote nas Trevas: o Embaixador Souza Dantas e os Refugiados do Nazismo" (Record, 2002).
Fonte: Jornal Zero Hora
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